Rafael Araújo Njaim tem 19 anos e estuda turismo. Após participar do Work and Travel morando em Snowmass, uma pequena vila de Aspen, ele já se prepara para seu segundo intercâmbio.
Quando você olha, o estilo bermudão florido e fala mansa, nem sempre revelam sua doçura, garra e comprometimento. Ainda bem que agora, depois da viagem, já não resta mais qualquer dúvida!
Rafael veio até a agência e nos contou todas as aventuras, dificuldades e vitórias desses cinco meses em que ficou fora de casa. Será que valeu a pena?
SNOW Imagem: Rafael, eu gostaria que você contasse um pouquinho como foi essa experiência.
Rafael: Foi muito válida. Tive muita dificuldade no começo, porque cheguei sozinho. Mas isso acabou sendo muito gratificante, fiz muitas amizades. Existe o maior preconceito bobo de que eles [os americanos] são exploradores e não é nada assim. Eles têm o maior carinho, até porque precisam da gente, dessa mão de obra.
SI: Você já saiu do Brasil empregado?
Rafael: Não, só com uma proposta na Aspen Sky Company. Era um trabalho de nignt clean (das 19h às 10h30). Mas que não aceitei de cara porque não tinha certeza se era isso que eu queria. Como fiquei duas semanas sem emprego, comecei a pegar todos os ônibus e viajar muito na região. Numa dessas viagens, bati na porta de uma pizzaria. O meu chefe marcou a entrevista e eu cheguei mais cedo. Estava muito ansioso pelo emprego. Acabei chegando numa hora de muito movimento, ajudei no que eles estavam precisando e fui contratado na hora. Nesse, eu fazia de tudo um pouco: pizza, salada, limpeza e caixa.
SI: E como foi? Você gostava?
Rafael: Foi fantástico porque fiz grandes amizades. Meus chefes eram um casal de uns 60 anos e sem filhos. Então, eles meio que me adotaram, me encheram de presentes. No dia da minha volta, eu dormi na casa deles, que ficava a duas horas do aeroporto, eles me deram café da manhã e depois me levaram lá. Foi ótimo, sem explicação!
SI: E esse ano você volta para o mesmo lugar?
Rafael: Ao contrário do ano passado, saio daqui com dois empregos dessa vez. Esse da pizzaria e outro, num hotel, atendendo telefone e anotando pedidos dos quartos. É bem tranquilinho e está na minha área, que é hotelaria.
SI: E como era essa questão do inglês? Você já falava um pouco? Conseguiu se virar numa boa?
Rafael: Eu fazia inglês há muitos anos, mas ele era bem básico. Antigo, mas básico. Daí eu fiz um intensivo seis meses antes da viagem, uma hora por dia, todos os dias da semana.
SI: Houve melhora depois da viagem?
Rafael: Melhorou, melhorou muito. Principalmente com o emprego da pizzaria porque só tinha americano e isso ajudou a forçar.
SI: Como foi pra você se virar longe de casa? Passou muita dificuldade?
Rafael: Foi muito tranqüilo, você aprende de tudo. Quando eu cheguei, pensei que ia morrer de fome porque nem o fogão eu sabia ligar. Um dia tive que sair na rua para ver se alguém me ensinava. Mas eu fui muito preparado, sabia o que precisava ser feito, as providências que eu tinha que tomar. A minha falava: “o Rafael nunca fez nada, nunca trabalhou, tem a maior vida mansa”. Mas depende muito de você. Cheguei num lugar onde eu não ia ter os recursos do meu pai ou da minha mãe pra cobrir os meus gastos. Então, tive que lutar pelo que eu queria. Correr atrás, preencher vários formulários, fazer milhões de entrevistas...
SI: Sua casa era legal?
Rafael: Eu morava numa casa muito grande: eu e mais 10. Mas a gente não tinha o número de pessoas suficientes pra fazer o depósito inicial de aluguel da casa. Aí, eu e os meus amigos começamos a olhar a internet, Orkut. Acabou que só três eu já conhecia do Brasil, mas acabou virando a maior família.
SI: Todo mundo chega cheio de histórias pra contar. Você pode contar uma sua pra gente?
Rafael: Um dia eu saí do trabalho, fiz o que tinha que fazer e saí pra pegar as minhas coisas. Foi quando eu percebi que tinha perdido a minha mochila. Nossa, eu fiquei desesperado porque tinha tudo nela: meus documentos, cartão de crédito, vários pay checks - porque eu demorava muito pra descontar – tudo que era importante. Aí liguei pra polícia, botei todo mundo do lugar pra procurar, mobilizei a maior galera por conta da mochila. Fui pra casa desolado. Quando eu chego no meu quarto ela tava lá, em cima da minha cama. Eu nem tinha levado. Nossa, eu abraçava ela, beijava. Parecia um tesouro. [risos]
SI: Cada intercambista sai do Brasil com objetivos diferentes. E os seus? Foram alcançados, ampliados?
Rafael: A maioria foi ampliada. Eu não esperava ser tão excepcional como foi. Esperava apenas uma viagem de férias, mas acabou sendo tão empolgante, com tantas amizades... eu ganhava bem e estava sempre de bom humor. Eu não imaginava que seria capaz de tanto. E por ter sido tão maravilhoso, eu já cheguei no Brasil com a idéia de voltar. Mas esse ano com expectativas maiores, de sair de lá e puxar um curso na Espanha.
SI: E a grana? Deu pra juntar, pra fazer o que você pretendia?
Rafael: Você não ganha esse dinheiro, você trabalha por ele, acorda cedo, trabalha às vezes 16, 18 horas por dia. Minha folga era só na segunda-feira, aquele dia que ninguém quer de folga. É muito esforço, mas muito compensador.